Telemedicina e Telessaúde: o que isso significa mesmo?

FONTE: TME

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O uso das Tecnologias Digitais da Informação e das Comunicações (TDIC) determina diversos impactos em diversos segmentos da sociedade, e por isso mesmo, com muita propriedade, ela tem sido denominada Sociedade Digital. Na prática, todos os setores da convivência social são afetados, mas para os propósitos do que aqui se expõe, o maior destaque ressalta as influências na comunicação entre as pessoas, no contexto da Sociedade da Informação. Nunca foi possível imaginar, nem nos mais mirabolantes sonhos futurísticos, que as interações entre os seres humanos atingissem a complexidade hoje constatada. O fenômeno, entretanto, precisa ser bem contextualizado. Embora a tecnologia possa facilitar as relações nessa sociedade, os resultados, muitas vezes, possuem natureza complexa, não apenas complicada. Nesse panorama, portanto, não se pode esquecer as influências das TDIC na área da saúde, o que exige reflexão, por motivos especiais nem sempre lembrados.

As TDIC já foram chamadas apenas de Tecnologias da Informação ou simplesmente TI. Essa simplificação, diante da complexidade hoje observada, mais que a complicada tecnologia em constante evolução, já não é mais suficiente para dar significado a toda sua abrangência. E é natural, no decorrer da história, que denominações se sucedam, sinalizando a tentativa de agregar novos conceitos e teorizações na tentativa de harmonizar inovações com permanência, no intuito de preservar tradições. No amplo e movediço terreno das aplicações das TDIC na área da saúde, que se estende do manuseio de moléculas às implicações de âmbito populacional, isso tem ocorrido com frequência. Observando as primeiras aplicações do uso de computadores na medicina e na saúde, nos anos 50 do século passado, e dirigindo as atenções para o contexto atual, como sequenciamento do genoma humano, uso da nanotecnologia, desenvolvimento de sensores implantáveis e, mais ainda, considerando a integração da computação nas nuvens, da internet das coisas e da computação móvel com o desenvolvimento de prontuários e registros eletrônicos de saúde, sistemas de apoio à decisão, monitorização remota, entre outros, também na saúde se constata a profusão de denominações: computação médica, informática em saúde, informática médica, informática biomédica, informática clínica. Tudo constitui o terreno multidisciplinar da saúde digital (e-Saúde), e cada termo tem defensores e detratores, enquanto novas categorizações são propostas. Aí estão a medicina de precisão, a medicina de participação, dando margem inclusive a especulações futuristas! Fruto das complicadas interfaces da ciência da informação com a ciência da computação, com a informática e as telecomunicações, essa tessitura constitui terreno inter, multi e transdisciplinar, dai o MIT, com inerente imprevisibilidade. O que a torna complexa e não apenas complicada, sendo insuficiente apenas decompor suas partes constituintes, analisando relações para buscar soluções. Na complexidade há que considerar o caráter mutável e incerto dos fenômenos, indo além do raciocínio analítico.

É nesse cenário que hoje encontramos a Informática Biomédica e a Informática Clínica, dois termos ainda convivendo com denominações mais tradicionais e mais conhecidas, como Informática em Saúde, Informática Médica, além de algumas outras que buscam particularizar o campo de aplicação a que se destinam (Informática em Enfermagem, Informática em Veterinária). Há, entretanto, algo que nem a abrangente Saúde Digital consegue esclarecer apenas por sua designação em si, quando se indaga acerca do corpo de conhecimentos que confere a essas designações a condição de ciência. E quais competências precisa dominar um profissional da área? E onde essas novas realidades devem ser ensinadas? As indagações, como se vê, se avolumam e nada sinaliza que possam ser respondidas, nem que as resposta encontradas tenham alguma durabilidade. É bom considerar, portanto, a possibilidade de que as dúvidas venham até a se avolumar, embora no meio de tanta imponderabilidade possam ser divisados alguns direcionamentos. Entre eles é incontestável que qualquer caminho passa pela educação. Sem dúvida, além disso, não vai contribuir muito empregar métodos tradicionais, o que leva à contingência do uso da Educação a Distância (EaD) online, seguindo princípios já bem estabelecidos de andragogia, em busca da heutagogia, com estrita atenção e respeito às considerações acerca da existência de inteligências múltiplas. A discussão sobre Saúde Digital, dessa forma, não pode mais se cingir tão somente às tensões entre o analógico e o digital, entre profissionais da informação e da computação, ou da engenharia de software, entrincheirados de um lado, e profissionais de saúde do outro. Nesse esquema cada um irá sempre propor, por força de desconhecer o terreno do outro, soluções impossíveis de funcionar diante de problemas reais complexos. É inadiável a prática do que ressalta como marca indelével da sociedade atual, como lógica da internet, na sua deslumbrante abundância: o compartilhamento.

Nesse panorama, a Telemedicina e a Telessaúde podem servir de exemplo à sociedade. Constituem subáreas da Informática em Saúde, cuja denominação mais apropriada seria, como proposto há algumas décadas, Informática Biomédica. Ambas devem caminhar juntas, bem assim porque o interesse maior deve ser a quem deve beneficiar o que elas permitem fazer, e não qual o profissional merece destaque. Profissionais envolvidos no uso de Telemedicina e Telessaúde, definidas como a prestação de serviços de saúde por meio de recursos das TDIC, quando o tempo e a distância constituem fatores críticos, podem se beneficiar muito atuando nessas áreas, mas não são o cerne na cadeia de produção de saúde. Aí, o mais importante é o ser humano, na escala individual, e as populações beneficiadas, na dimensão coletiva. Os prestadores de serviço podem e devem se beneficiar, mas em outra dimensão, como por exemplo, o da aprendizagem, um aspecto, aliás, quase sempre esquecido. Do mesmo modo, tentar dissociar a Telemedicina e Telessaúde, ou estabelecer por quaisquer critérios quem abriga quem, ou qual delas está contida dentro da outra, em nada contribui para melhorar quaisquer resultados. Elas próprias, por sua vez, assumem designações mais específicas, como Telecardiologia, Telepsiquiatria, Telepatologia, Teleoftalmologia: uma lista bem conhecida de possibilidades não meramente semânticas. As vantagens surgem exatamente das disponibilidades criadas, melhorando a resolutividade do atendimento em pontos distantes, facilitando o acesso a especialistas, evitando deslocamentos desnecessários, orientando a demanda. Possibilidades que redundam em diversos benefícios, racionalizando esforços e reduzindo custos, com impacto no desperdício. Facilitando construir ciclos duradouros de melhoria da qualidade de vida.

Mas, como fazer isso? Quais os profissionais envolvidos? O que devem saber e como devem trabalhar? O que compete a cada um e como manter o funcionamento desses serviços? As respostas são muitas e podem ser categorizadas. No serviço público, o primeiro passo refere-se ao gestor: caso ele não saiba do que se trata, tudo resulta sombrio. É preciso considerar também a indispensável infraestrutura. Segue-se, é claro, o aprendizado dos profissionais de saúde que vão utilizar a tecnologia envolvida no processo. A população usuária, por fim, deve ser orientada para os benefícios que pode usufruir. Um amplo leque de parcerias, portanto, precisa ser estabelecido, o que requer coordenação bem concatenada, atribuindo funções e responsabilidades, avaliando resultados e tomando decisões. Isso requer planejamento, item básico do conceito de Saúde Digital e aplicável a todas as áreas que lhe são adstritas.

Finalmente, nada disso será possível construir sem educação, reflexão, sem desenvolver espírito crítico, em respeito aos ditames éticos envolvidos. É ainda campo propício a injunções focadas no empreendedorismo e na inovação. No âmbito da Atenção Básica pode ser associada, ainda, a diversas outras áreas, como o uso de Sistemas Eletrônicos de Saúde ou Prontuários Eletrônicos, Sistemas de Apoio à Decisão, repositórios de consultas, em estreita cooperação com a regulação, o que ressalta a natureza complexa do tema. É fundamental, por fim, que os profissionais envolvidos estejam em constante discussão e busca de aprendizado, em permanente exercício do espírito crítico, tanto em relação a questões técnicas quanto aos pormenores éticos inerentes. E ai surge o papel de uma entidade associativa como a Associação Brasileira de Telemedicina e Telessaúde (ABTms). A ela compete a tarefa inexcedível de constituir a memória e a consciência viva desse trabalho já existente no Brasil, mas que precisa crescer e se consolidar dentro da visão da saúde que apreende. Criar um blog dedicado a isso é constituir um ponto de convergência, favorecendo a compreensão das dimensões do uso das TDIC na saúde, estimulando conhecimento e despertando vocações, na busca constante da equidade, da democratização e da melhoria da assistência à saúde no nosso país.

 

Prof  Dr. Luiz Roberto de Oliveira

Coordenador do Núcleo de Tecnologias e Educação a Distância em

Saúde da Universidade Federal do Ceará (NUTEDS/UFC)

2 thoughts on “Telemedicina e Telessaúde: o que isso significa mesmo?

  1. Prof. Luiz Roberto, parabéns pela sua reflexão e visão crítica sobre saúde digital, seu alcance, os vários termos utilizados, incluindo a telemedicina e a telessaude. Sua compreensão ampla e madura reflete o sério trabalho e sua trajetória na área como docente, pesquisador e gestor Coordenador do Núcleo de Telessaude da UFC.

    • Prezada Prof. Ana Estela, muito grato por sua honrosa mensagem. Com toda a sua experiência e história na Telessaúde e Telemedicina no Brasil, com seu memorável esforço na implantação do Programa Nacional de Telessaúde em nosso país, por toda sua vitoriosa trajetória à frente desse projeto, hoje um programa de renome internacional, fazendo uso de sua feliz expressão, sua manifestação ao que escrevi constitui, sem nenhuma dúvida, um elogio especial. Menos à minha pessoa, mas à necessidade do permanente diálogo que leve a todos a consciência da necessidade do amplo pacto indispensável à melhoria das condições de saúde no territótio nacional, a começar pela educação, frente aos desafios do uso das tecnologias digitais.

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