Telessaúde: ferramenta indispensável para uma nova organização dos serviços de saúde?

ehr-1476525A organização dos cuidados em saúde no Brasil, no Sistema Único de Saúde (SUS) ou na saúde suplementar, tem como uma de suas maiores características a fragmentação e ausência de mecanismos de coordenação assistencial. Em nível ambulatorial especializado, os serviços apresentam qualidade heterogênea, com resolutividade limitada, média incorporação tecnológica e praticamente ausência de mecanismos de coordenação assistencial, aliada a dificuldade de acesso. E, no âmbito da APS, além da qualidade heterogênea, da resolutividade limitada, da ausência de mecanismos de coordenação assistencial e da dificuldade de acesso, temos ainda a baixa incorporação tecnológica.
O TelessaúdeRS-UFRGS desenvolveu três serviços diferentes para o fortalecimento da coordenação assistencial.

  • Teleconsultorias: Consultas realizadas por profissionais da área da saúde, por meio de telecomunicação bidirecional, com a finalidade de esclarecer dúvidas sobre procedimentos clínicos, ações de saúde e processo de trabalho. Até o momento, mais de 83 mil teleconsultorias já foram respondidas somente por telefone (síncrona) com 95% de satisfação dos profissionais solicitantes (médicos e enfermeiros da APS do Brasil) e tendo evitado cerca de 66% as necessidades de encaminhamento.
  • RegulaSUS: Organizaçãodo acesso ambulatorial a os serviços especializados.  Isso ocorreu a partir do desenvolvimento de protocolos de referenciamentos e discussão de casos clínicos de pacientes em lista de espera. Nas 13 especialidades médicas reguladas, a fila de espera de pacientes encaminhados para especialistas diminuiu de 190 mil pessoas para menos de 70 mil pessoas em 3 anos.
  • Telediagnóstico: Ampliação do acesso a exames de condições e agravos de maior prevalência. O Projeto Respiranet implementou no RS 9 pontos descentralizados com equipamentos para realizar a espirometrias. O exame é solicitado via plataforma telessaude e é realizado e em até 15 dias após a solicitação. O número de espirometrias realizadas em 3 anos supera os 13 mil.

Uma das limitações percebidas é a insuficiência da rede lógica das UBS. Mesmo que as teleconsultorias síncronas sejam realizadas via telefone (0800 644 6543), outros serviços ofertados necessitam de investimento em conectividade para seu uso e ampliação. Além disso, ainda parece existir uma certa resistência dos profissionais de saúde no uso de tecnologias por haver pouca familiaridade com o tema.

Outra limitação importante é a impossibilidade legal de realizar teleconsulta no Brasil a contramão de legislações de países desenvolvidas que há muito permitem a interação profissional-paciente por meio de ferramentas de telessaúde.

O desenvolvimento das ferramentas de telecomunicações e o consumo acelerado de tecnologias móveis apontam para uma difusão acelerada de ferramentas de telessaúde. Nesse contexto, os pacientes terão muito mais poder e influência sobre o seu próprio cuidado. Novos modelos de serviços de saúde surgirão, impossíveis de serem desenhados hoje. Não há dúvida que as ferramentas de telessaúde poderão fortalecer a coordenação assistencial ao ampliar acesso, reduzir custos e garantir qualidade.

Otávio Pereira D’Avila

Doutor em Odontologia | Coordenador Executivo TelesaúdeRS-UFRGS | Lattes

Marcelo Rodrigues Gonçalves

Doutor em Epidemiologia | Coordenador Geral TelessaúdeRS-UFRGS |  Lattes

 

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