“Uberização” da saúde?

pexels-photo-249348O termo uber (ou über) é uma palavra de origem alemã que equivale ao “above” em inglês (acima, entre outras). No inglês americano falado uber é uma gíria e seu significado é: “super”, “máximo”, etc” (1). Desde 2009, o surgimento da Ubercab trouxe outro significado, tornando-se uma forma de prestação de “super” serviço de transporte “acima” da média. (2). O sucesso desta startup tem motivado outros segmentos a fazerem um benchmarking, inclusive na saúde, como menciona Velloso (3). Na saúde, simplificadamente seria a entrega do serviço ao paciente, de acordo suas preferências de local, horário e custo.

Dito desta forma, parece ser uma boa estratégia para aumentar o acesso aos serviços de saúde, reduzir custos e ampliar a conveniência aos usuários.Porém, quando se analisa esta tendência sob a ótica do prestador de serviço, observa-se uma precarização da condição de trabalho do servidor da saúde, como bem explica Abílio (4), e é sob esta perspectiva que os convido para uma reflexão.

Não está apresentada uma resolução, mas uma provocação para o debate. É certo que o setor de saúde não pode deixar de aproveitar a oportunidade da economia digital e usar ferramentas móveis, dispositivos vestíveis, sensores remotos, big data, robótica, dentre outras, para agregar maior valor para o paciente. Porém, desenvolvendo formas de proteção ao profissional da saúde, pois o mecanismo da uberização transfere os riscos e os custos da produção para os próprios trabalhadores. O CBTms, que se aproxima, pode ser um espaço para este debate, possivelmente, gerando alternativas que aproveitem as vantagens da evolução tecnológica, o empoderamento do paciente em relação ao seu autocuidado, mantendo os direitos sociais dos profissionais da saúde.

Talvez, o debate não deva se limitar aos profissionais de saúde, gestores e prestadores de serviço, mas ampliada até os demais agentes desta cadeia produtiva, como as instituições formadoras, os órgãos governamentais reguladores das atividades de trabalho, as operadoras, pacientes, bem como toda a sociedade.

Em 2016 fiquei entusiasmada com a “super solução” aos problemas de custos e acesso, entretanto, estudando o fenômeno, como diz Abílio (4), a uberização consolida a passagem do estatuto de trabalhador para o de “nanoempresário-de-si” permanentemente disponível ao trabalho; retirando-lhe garantias mínimas ao mesmo tempo em que mantém sua subordinação.”

Ao meu ver, a uberização da saúde tem valor porque gera agilidade e conveniência, mas sem regulamentação que evite amadorismos: protegendo usuários, com o mínimo de segurança de dados, confiabilidade do sistema e garantia de privacidade. E evite a exploração escravizadora do trabalhador, é uma forma de produção questionável.

Rosângela Simões Gundim

Doutorado em Ciências da Saúde | Diretora do Serviço de Telemedicina e Telessaúde

do Instituto do Coração HC FMUSP | Lattes

Referências

1: Lima D. O que é uber? O que significa uber?. Acesso em: 24/04/2017. https://www.inglesnapontadalingua.com.br/2015/07/o-que-e-uber-o-que-significa-uber.html.

2: Melo C. Uber: a história da startup mais valiosa do mundo. Acesso em : 24/04/2017. http://www.administradores.com.br/mobile/artigos/empreendedorismo/uber-a-historia-da-startup-mais-valiosa-do-mundo/89284/

3: Velosso R. A “uberização” da saúde é uma questão de tempo. Acesso em: 24/04/2017 http://saudebusiness.com/uberizacao-da-saude-e-uma-questao-de-tempo/

4: Abílio LC. Uberização do trabalho: subsunção real da viração. Acesso em: 24/04/2017. https://blogdaboitempo.com.br/2017/02/22/uberizacao-do-trabalho-subsuncao-real-da-viracao/

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